sábado, 23 de julho de 2011

A Marcha do dia.

Havia um Homezinho, que morava em algum ponto frio de Curitiba, que queria estar em todos os locais ao mesmo tempo. Isso antes de aprender(na aula de qualquer coisa) que um corpo não pode ocupar todos os espaços de uma só vez.
Mas o Homenzinho queria participar, ser ativo, saber de tudo e opinar sobre tudo ao mesmo tempo e agora. Eis que conheceu uma Mocinha que fazia exatamente o que ele gostaria de fazer: estava em todas.
E foi assim, amor a primeira conversa. Mocinha participava de marchas, porque marchar era ter uma opinião segura e embasada sobre tudo. A cada semana havia uma nova marcha. Que lindo! O amor uniu o homenzinho e a mocinha, e ambos passaram a maltratar suas respectivas batatas da perna em exercícios semanais pelas ruas da cidade. Qualquer cidade.
O primeiro passo foi a sensacional e politizada “Marcha dos Ex-Militares que não conseguiam marchar”- uma pesada crítica ao totalitarismo e a todas as formas de movimentos repetitivos e patéticos. Mais de mil pessoas compareceram, com faixas e bandeiras. Homenzinho e Mocinha estavam na linha de frente, protestando e carregando os dizeres “Não sei marchar. Vai encarar?.”
Chegaram em casa animados, pois na próxima semana haveria a psicodélica marcha dos “Apreciadores da infusão entre orégano, chimarrão e ervas-naturais queimadas em incenso”. Sucesso de público e crítica, a caminhada pacífica reuniu os apreciadores de tal especiaria, cujo barato poderia transmutar qualquer ser para uma viagem intergalática rumo a algum barzinho do Largo da Ordem. Homenzinho e Mocinha nunca fizeram uso de tal substância, mas sabiam que a causa era justa.
Um belo dia, depois de meses de intensas marchas em prol de causas diversas, Homenzinho e Mocinha encararam um grande dilema: no fim de semana da vez, haveriam 4 marchas simultâneas! Uma delas, a favor das pessoas que comem feijão por cima do arroz; a outra defendia “O Orgulho de quem já viu o Boitatá”; a terceira, de cunho violento e autoritário, defendia o ”Orgulho das pessoas que sabem que Boitatá não existe mas que estudam a existência do Saci-Pererê”; e por fim a marcha do “Orgulho dos Mamíferos” que visava, por meio de intensos estudos antropológicos, provar a superioridade dos mamíferos sobre qualquer espécie de minerais ou hortaliças.
Após detalhados estudos, o engajado casal decidiu-se pela marcha dos mamíferos, pois provavelmente seria a mais animada, com direito a manifestantes recebidos a pedradas e sendo enforcados com maços de cheiro-verde. Um espetáculo!
Mas, no meio do caminho, Homenzinho e Mocinha viram uma marcha diferente de todas que já participaram. Era conduzida por um grande carro preto, pessoas vestidas de preto e um grande caixão(preto, é claro). Não havia ninguém feliz por ali. Nem faixas, nem câmeras, nem gente bonita e descontraída, nem a escolta da polícia, nem música, nem alegria. Sequer havia vida.
Decepcionados, a dupla de apaixonados percebeu que nem toda marcha era divertida, ou trazia em si uma grande causa. As vezes o real motivo, era apenas a morte de um ser humano. Após o acontecido, ambos passaram a dar um novo teor aos seus fins de semana. Homenzinho começou a ler e trabalhar, e mocinha passou a ler, trabalhar e a ouvir. E hoje, eles só marcham pra acudir o vizinho doente, tirar o cachorro do meio da rua e para comprar as fraldas do filho recém nascido.

E também, para fortalecer as batatas da perna.

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